Comprar casa sem entrada: porque os 100% podem sair caros
Comprar casa sem entrada parece uma solução, mas um crédito a 100% tem custos e riscos. As contas e quando faz sentido.

Comprar casa sem entrada, com financiamento a 100%, resolve o problema de quem não tem poupanças, mas cria outro: um empréstimo maior, mais juros e menos margem se a vida ou a Euribor mudarem. A garantia pública para jovens abriu esta porta a milhares de pessoas, e ainda bem. A questão é saber se o seu caso é dos que aguentam o risco.
A entrada nunca foi só um obstáculo
Durante anos, a entrada de 10% foi vista como uma barreira injusta para os jovens. Em parte é: com rendas altas, juntar 25.000 euros enquanto se paga renda é difícil. Mas a entrada também servia de almofada. Quem compra com 10% de capital próprio começa com uma parte da casa paga. Quem compra a 100% começa com uma dívida igual ao valor da casa, e com os custos da compra pagos à parte.
As contas de comprar a 100%
Imagine uma casa de 250.000 euros, um crédito a 30 anos e uma taxa de 3,15% (Euribor perto de 2,15% mais 1% de spread, valores de fevereiro de 2026):
| Com entrada de 10% | Sem entrada (100%) | |
|---|---|---|
| Montante do empréstimo | 225.000 € | 250.000 € |
| Prestação (sem seguros) | cerca de 967 € | cerca de 1.074 € |
| Juros em 30 anos | cerca de 123.000 € | cerca de 137.000 € |
São mais 107 euros por mês e cerca de 14.000 euros de juros a mais, se a taxa se mantiver. Com seguros calculados sobre um capital maior, a diferença cresce.
O risco que não aparece na simulação
A simulação do banco usa a Euribor de hoje. Para um casal com 2.400 euros líquidos por mês, a prestação de 1.074 euros pesa 45% do rendimento. Se a taxa subir 2 pontos, como aconteceu em 2022 e 2023, a prestação passa para cerca de 1.365 euros: 57% do rendimento. É aqui que muitas famílias deixam de conseguir poupar e começam a atrasar pagamentos.
Há ainda o risco de ficar a dever mais do que a casa vale. Se precisar de vender nos primeiros anos, por mudança de emprego ou separação, e os preços estabilizarem ou descerem, o dinheiro da venda pode não chegar para pagar o empréstimo e os custos.
Quando comprar a 100% faz sentido
Rendimento estável, com contrato efetivo ou atividade consolidada.
Prestação bem abaixo do limite: idealmente até um terço do rendimento líquido, com espaço para subidas de juros.
Fundo de emergência de alguns meses de despesas, mesmo sem entrada.
Plano para ficar na casa vários anos.
Renda atual alta, em que a prestação substitui uma despesa parecida.
Quando é melhor esperar
Se a prestação só cabe no orçamento com a Euribor atual, se o emprego é incerto ou se não tem qualquer poupança para imprevistos, esperar um ou dois anos a juntar dinheiro pode ser a decisão mais segura. Também pode procurar uma casa mais barata, noutra zona ou com uma tipologia menor, em vez de esticar o crédito ao máximo.
Perguntas frequentes
Comprar a 100% tem spread mais alto?
Pode ter. Cada banco define o spread pelo risco, e um LTV mais alto costuma ter condições menos favoráveis. Compare propostas.
Posso amortizar mais tarde para reduzir o risco?
Pode, e é uma boa estratégia. Desde 2026, a amortização antecipada num crédito com taxa variável tem uma comissão até 0,5%.
Decidir com números
Antes de decidir, defina um orçamento com folga e procure casas à venda nesse limite no Portal Casa. Para conhecer as regras, leia o artigo sobre como comprar casa sem entrada.
Cálculos aproximados, sem seguros nem comissões, com taxa constante. Artigo de opinião.